Você já reparou que seus pés, ou os do seu filho, parecem se curvar para dentro? O varismo do retropé é uma condição que vejo com bastante frequência no meu consultório.
Estamos falando de uma deformidade no pé em que o calcâneo — basicamente o calcanhar — se inclina para dentro em relação ao eixo normal da perna. Na verdade, não é uma ocorrência incomum. Muitos pacientes me procuram preocupados porque percebem que seus sapatos estão se desgastando de forma anormal ou porque sentem desconforto ao caminhar.
O pé varo posterior pode ocorrer em qualquer idade. Em crianças, geralmente é um problema de desenvolvimento; em adultos, pode ser resultado de trauma ou outras condições. A boa notícia? Pode ser tratado com eficácia, principalmente se o problema for detectado precocemente.
O que exatamente é varismo do retropé?

Imagine olhar para o seu pé por trás. Em condições normais, o calcanhar deve estar praticamente alinhado com a perna, talvez com uma ligeira inclinação para fora (o que chamamos de valgo fisiológico). No varismo do retropé, ocorre o oposto: o calcanhar "colapsa" para dentro.
É como se o pé perdesse seu equilíbrio natural. Ao sustentar o peso do corpo, em vez de distribuí-lo uniformemente, você tende a colocar mais peso na borda externa do pé. Isso cria uma série de compensações que podem causar problemas não apenas no pé, mas também na coluna.
Os pacientes costumam me dizer: "Doutor, não sei por quê, mas meus sapatos sempre se desgastam na parte externa". Esse costuma ser o primeiro sinal de que algo não está certo com o pé. O varismo do calcâneo pode ser mais ou menos pronunciado — em alguns casos, é quase imperceptível; em outros, é bastante óbvio, mesmo a olho nu.
As causas? Existem várias.

Então, por que ocorre o varismo do retropé? Existem muitas causas, e elas frequentemente se interligam de maneiras que tornam cada caso um pouco diferente.
Em crianças, é muito comum ser um problema congênito. O pé adquire esse formato durante a gravidez. Não é culpa de ninguém, simplesmente acontece. Às vezes, está associado a outras condições, como o pé torto congênito, que é mais complexo e requer uma abordagem específica.
Em adultos, a situação é diferente. Lesões no tornozelo, fraturas do calcâneo mal consolidadas e lesões nos tendões — especialmente o tibial posterior — podem levar a uma deformidade do retropé. Outro dia, um paciente veio me consultar após sofrer uma fratura grave no tornozelo anos atrás: com o tempo, o pé desenvolveu um varo significativo.
Algumas doenças neurológicas também podem ser responsáveis. Estou pensando em paralisia cerebral, espinha bífida ou doenças como a de Charcot-Marie-Tooth. Nesses casos, o desequilíbrio muscular leva gradualmente à deformidade.
E depois há os pés cavos — aqueles com arcos muito altos. Eles geralmente vêm acompanhados de pé varo, criando uma condição que chamamos de "cavus varus". É uma combinação que pode causar problemas sérios se não for tratada adequadamente.
Os sintomas que levam os pacientes a me procurar.

"Doutor, dói aqui embaixo, na parte externa do meu pé." É o que eu mais ouço. A dor na lateral do pé é típica do varismo do retropé, porque todo o peso repousa nessa área.
Mas não se trata apenas de dor. Muitos pacientes queixam-se de uma sensação de instabilidade ao caminhar, especialmente em terrenos irregulares. De fato, o pé varo tende a "rolar" para fora com mais facilidade.
Os sapatos se desgastam de uma forma característica: muito na borda externa e pouco na interna. Alguns pacientes me dizem logo de cara: "Meus sapatos duram metade do tempo que costumavam durar e sempre se desgastam no mesmo lugar."
Com o tempo, se o problema não for tratado, a dor também pode aparecer no tornozelo, joelho ou até mesmo nas costas. O corpo tenta compensar a falta de suporte, mas eventualmente algo cede.
Em casos mais graves, formam-se calosidades e calos dolorosos na parte externa do pé. E há também a questão estética, que não deve ser subestimada: muitos pacientes sentem-se constrangidos com a aparência dos seus pés, especialmente no verão.
Como faço para diagnosticar?

Quando um paciente chega ao meu consultório com suspeita de varismo do retropé, a primeira coisa que faço é observá-lo caminhar. Observo sua postura, sua marcha e se ele manca ou apresenta alguma compensação específica.
Em seguida, peço que ele fique descalço e o examino por trás. O varismo do retropé costuma ser bem visível nessa posição. Também verifico a flexibilidade do pé: consigo corrigir a deformidade manualmente? Se sim, é um bom sinal para tratamento conservador.
Examinar os sapatos é crucial. Sempre os trago para mostrar aos meus alunos: "Vejam só, percebem como estão gastos? Isso diz muito mais do que palavras." O padrão de desgaste conta a história do pé.
Para obter um quadro completo, quase sempre solicito radiografias. Radiografias anteroposterior e lateral do pé, frequentemente incluindo uma radiografia do retropé com apoio de peso. Esses exames me informam a gravidade da deformidade e se existem outras anormalidades associadas.
Em alguns casos, uma ressonância magnética pode ser necessária, especialmente se eu suspeitar de problemas nos tendões ou se precisar planejar uma cirurgia. Mas, na maioria dos casos, um exame clínico minucioso e radiografias são suficientes para orientar o diagnóstico.
Opções de tratamento

Bem, isso depende muito da gravidade do problema e da idade do paciente. Em crianças pequenas, muitos problemas podem ser corrigidos com tratamentos conservadores, como palmilhas feitas sob medida, fisioterapia específica e, às vezes, até gesso corretivo.
Palmilhas costumam ser a primeira coisa que experimento. Não as palmilhas comuns de loja, entenda bem — estou falando de palmilhas ortopédicas personalizadas, feitas especificamente para aquele pé. A ideia é corrigir a posição do pé e redistribuir melhor a carga. Muitos pacientes sentem alívio imediato.
A fisioterapia pode ajudar bastante, principalmente no fortalecimento dos músculos que estabilizam o pé. Exercícios de alongamento, fortalecimento do tibial posterior e trabalho de propriocepção. Pode parecer pouco, mas faz toda a diferença.
Quando o tratamento conservador não é suficiente, a cirurgia pode ser considerada. Existem várias técnicas, desde a osteotomia do calcâneo, a mais simples, até procedimentos mais complexos que também envolvem o antepé. O tipo de procedimento depende do caso específico.
Afinal, cada pé conta uma história diferente. O que funciona para um paciente pode não funcionar para outro. É por isso que uma avaliação individualizada é essencial.
O que acontece após a cirurgia?

Caso seja necessária cirurgia, o tempo de recuperação varia bastante. Para uma osteotomia simples do calcâneo, geralmente é necessário o uso de uma órtese por 6 a 8 semanas, após as quais a caminhada pode ser retomada gradualmente.
Meus pacientes sempre me perguntam: "Quando poderei correr novamente?" Bem, isso depende. Normalmente, para esportes mais intensos, é preciso esperar de 4 a 6 meses. Mas sempre vejo resultados muito satisfatórios quando a indicação cirúrgica é correta.
A fisioterapia pós-operatória é crucial. Não basta realizar uma boa cirurgia — é preciso também fazer uma reabilitação adequada. Caso contrário, grande parte dos benefícios da cirurgia se perde.
Como prevenir o problema

Sinceramente, quando existe uma predisposição congênita, não há muito o que fazer. No entanto, em muitos casos, é possível evitar que a situação piore.
Os sapatos certos fazem toda a diferença. Evite saltos altos e escolha sapatos com bom suporte para o arco do pé. E, acima de tudo, se notar os primeiros sinais de um ajuste inadequado, não espere que o problema piore.
Consultas regulares são importantes para crianças, especialmente se houver histórico familiar de deformidades nos pés. Quanto mais cedo a intervenção, melhores os resultados.
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Perguntas Frequentes
O varismo do retropé sempre piora com a idade?
Não necessariamente. Depende da causa e da gravidade inicial. Com as medidas adequadas, a situação pode muitas vezes ser estabilizada ou agravada.
É verdade que você herda isso dos seus pais?
Em muitos casos, sim, existe um componente familiar significativo. Se houver histórico familiar de deformidades nos pés, vale a pena fazer exames preventivos.
É sempre necessário usar palmilhas?
Sim, quando você precisar. É como usar óculos: se você precisa deles para enxergar bem, você os usa. O mesmo vale para palmilhas e suportes para os pés.





